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DIA INTERNACIONAL DA LEMBRANÇA DO DESASTRE NUCLEAR DE CHERNOBYL:
O "INVERNO NUCLEAR"
"Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno ou no sábado"
(Jesus)
Exatamente há 40 anos ocorria o desastre nuclear de Chernobyl, dia 26 de abril de 1986. Ele submergiu a Ucrania em uma nuvem radioativa que alcançou rapidamente toda a Europa. Levada por correntes de vento, que não respeitam fronteiras políticas, a nuvem radioativa, produzida pela explosão do reator 4 da usina nuclear, deixou um rastro de morte, sofrimento e destruição. Foi um desastre ambiental cujos impactos foram muito além das fronteiras do bloco soviético.
Segundo Eric Hobsbawn, o historiador tem por ofício "lembrar o que outros esquecem", para compreender e não exatamente para julgar. No entanto, para um historiador, com formação jurídicofilosófica, o julgamento é não só possivel, como necessário. Por exemplo, não foi apenas necessário compreender o genocídio nazista, a razão prática nos levou à necessidade de julgá-lo, moral e juridicamente. Toda uma legislação internacional surgiu dessa necessidade, especialmente a partir do Tribunal de Nuremberg.
Nos passos do jurista e jusfilósofo Pontes de Miranda, nem todos os fatos da vida se apresentam significativos para o direito. Mas, existe um fluxo ininterrupto entre o "mundo fático e o mundo jurídico", que leva acontecimentos fáticos à órbita do mundo jurídico, tornando-se assim juridicamente relevantes. Para juristas mais contemporâneos, como Tullio Scorvazzi, o desastre de Chernobyl não só repercutiu na produção de uma legislação internacional sobre os sinistros nucleares, como nos fez pensar na responsabilidade jurídica dos Estados para prevenção, comunicação, reparação e compensação de tais acidentes.
Nos últimos anos estamos presenciando o rearmamento crescente das nações, com aumento significativo na produção de armas e artefatos nucleares, especialmente por Estados historicamente beligerantes. O filósofo Kant já recomendava em sua obra, "A paz perpétua"(1795), que o investimento em armas por um Estado levantará desconfiança em outros Estados, ocasionando a um corrida armentista e sabotando a paz. Se a Europa tivesse ouvido Kant, não teríamos a Primeira Grande Guerra, nem tampouco, a Segunda Guerra Mundial.
A gravidade de um "acontecimento" nuclear me faz pensar por verossimilhança, e com base naquilo que Foucault chama de "história profética" em Kant, que determinados eventos se revestem de uma dimensão de natureza profética, sem necessariamente serem metafísicos. Reforço essa relação a partir de uma interpretação heterodoxa das palavras de Jesus, aparentemente fora da tradição hermenêutica do Cristianismo tradicional. Damos ao termo "inverno" a aplicação à qualquer grande episódio que comprometa. uma rota de fuga.
Diz Eusébio de Cesáreia, no século III e IV, que os cristãos, de fato, fugiram da cidade de Jerusalém antes da sua tomada pelos romanos, exatamente antes do inverno, como Jesus havia recomendado. Mas, em minha interpretação, mais elástica, o termo "inverno" é perfeitamente aplicável ao momento atual. Um "inverno nuclear" põe limites à sobrevivência humana em uma escala nunca registrada em toda a história. Em um sentido um pouco diferente, o sociólogo Weber, no início da século passado, já se referia a um "inverno polar" fruto do desencantamento com modernidade tecnoburocrática, fundada em uma razão instrumental. Nos parece que esse inverno precederá um "inverno nuclear".
Talvez estejamos perigosamente nos aproximando de um "evento" no sentido kantiano, indicador de uma nova era, mas, infelizmente, não iluminada pelo bom senso, como pensava Kant. Uso como arcabouço geral a obra de Kant que descreve sua filosofia da história, "Ideia de uma história universal do ponto de vista cosmopolita" (1784), sem endossar seu otimismo. Estamos nos avizinhando de um incidente nuclear, que pode ter como palco inicial a guerra na Ucrânia ou a Guerra no Irã.
Recentemente o Irã fez um ataque à usina nuclear israelense de Dimona, considerada a usina mais bem protegida do mundo. Uma retaliação de Israel a um ataque que rompa a sua segurança será necessariamente nuclear. Um cataclisma nuclear cobrirá, na melhor das hipóteses, todo o planeta em uma espessa nuvem radioativa que comprometerá a vida por longos séculos, um verdadeiro "inverno nuclear".
Um historiador dizia que os Balcãs eram um barril de pólvora. Esquecemos que para explodir um barril de pólvora basta uma centelha de fogo. Foi o que aconteceu nos Balcãs, o atentado que levou a morte do príncipe Francisco Ferdinando, foi como um rastilho de pólvora, o estopim da Primeira Grande Guerra, que por sua vez levou à eclosão da Segunda Guerra Mundial fazendo a Europa e o mundo arder em chamas.
Mas, diferente da tomada de Jerusalém, onde os cristãos tinham para onde fugir, e diferente da Segunda e Terceira Guerra, que matou milhões de pessoas, um cataclisma nuclear não permitirá fuga para um lugar nenhum, nem tampouco permitirá contar os mortos, pois, como diz Hannah Arendt, a era nuclear põe em risco a extinção não de indivíduos, mas de toda a espécie humana.
Estamos assistindo, indiferentes, homens de Estado riscando o fósforo cada vez mais próximo do barril de pólvora.








